A REVOLUÇÃO DO AMOR

A REVOLUÇÃO DO AMOR

«Os humanos são seres singulares e nada poderá substituir aqueles que amámos e, mais em geral, aqueles que nos faltam, mesmo quando nos impediram a oportunidade de os conhecermos.(...) Somos humanos e querer a qualquer preço que nos tornemos deuses é, pura e simplesmente, absurdo. Para nós, definitivamente, o amor leva ao apego e não podemos fazer nada contra isso. Ainda para nós só existem como objectos pessoas singulares. Não se ama nem nunca se amará o universal, o intermutável, mas apenas o insubstituível. ´Porque era ele, porque era eu´, dizia Montaigne. Para nós, irremediavelmente, a morte do ser amado é e será uma catástrofe absoluta e é vão, dir-se-ia mesmo obsceno, querermos à força poupar-nos o risco desse sofrimento, com efeito indizível, privando-nos, a partir de agora e para sempre, de amar, praticando, através dessa antecipação que não tem outro motor a não ser um medo pânico, a vida monástica, a morte a partir de hoje, para que não possa perturbar-nos amanhã.(...) Cheio de boa vontade, o discípulo neófito tenta conseguir esquecer-se de si mesmo, esforça-se por realizar os exercícios da sabedoria, para dizer a verdade, de aniquilamento do eu, que as diferentes escolas filosóficas do Oriente e do Ocidente lhe recomendam que pratique de manhã à noite. Mas nada a fazer: a sua consciência é finita,a sua pessoa é limitada e continuará assim.(...) É preciso escolher o outro, decidir de forma voluntarista viver com ele, é preciso tentar, como se diz, ´construir´ qualquer coisa e não nos deixarmos levar apenas pela lógica única da paixão. (...) A paixão, curiosamente, não quer dominar tudo, ama o mistério, que o outro escape um pouco, que não seja totalmente previsível, transparente, em resumo, aborrecido como tudo aquilo que se pode manipular e controlar, como tudo aquilo através do qual se tem o sentimento de ver ao ponto de nos sentirmos sós com o outro.(...) Privarmo-nos do amor singular por ele terminar sempre por uma separação é o mesmo que nos atirarmos ao mar para não nos molharmos com a chuva.»

Luc Ferry, A Revolução do Amor, Círculo de Leitores